Os computadores dos filmes – Parte 1 – Wargames (Jogos de Guerra, 1983)

sexta-feira, 19 outubro, 2012 at 10:31 am 1 comentário

Eu não escondo de ninguém que uma das minhas grandes paixões (fora a Van, a TI, a ciência e a música) é o cinema. A sétima arte é, sem dúvida, uma das grandes realizações da humanidade. Reúne o melhor (e o pior) do que já produzimos além de nos contar histórias (antigamente, se contava) épicas, tristes, alegres, grandiloquentes, enfim, humanas, demasiado humanas.

Como uma de minhas outras paixões são os computadores resolvi procurar sobre os computadores que aparecem nos filmes. Há duas questões importantes a se ater aqui: primeiro, são os computadores dos filmes (quaisquer filmes) e outra são os filmes sobre computadores (geralmente fraquinhos).

Minha primeiras lembranças de computadores em filmes vêm da série de TV Batman, Star Trek, e também dos filmes cult Jogos de Guerra (Wargames) e Tron (o primeiro!). Lembro também de uma coisa horrorosa chamada Superman III que mostrava um cracker, Stanley Jobson, que fazia coisas absolutamente insanas (e inverossímeis) com computadores.

Não vou me ater neste post aos absurdos cometidos nos filmes, apenas aos modelos utilizados e quanto de verossimilhança eles possuem.

Vamos começar com o clássico Wargames  (Jogos de Guerra, 1983). Este filme faz parte da “trilogia Mathew Broderick” que encantou os teens dos anos 80(entre 1983 e 1986). Os outros dois eram “O Feitiço de  Áquila” e “Curtindo a vida adoidado”.


(pôster de Wargames)

Estamos em 1983, a Compaq lança o seu primeiro computador (reza a lenda que desenhado em um guardanapo!) usando engenharia reversa para clonar o IBM-PC; Richard Stallman cria a Free Software Foundation; A Microsoft anunciava o desenvolvimento de um tal de Word; o físico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar, citado no livro “Uma Breve História do Tempo” de Stephen Hawking, receberia o Prêmio de Nobel de Física.

No cinema, Fellini lança “E la nave va”, Bergman exibe “Fanny e Alexander” na América, o cineasta cinéfilo Brian de Palma e o grande Al Pacino nos deixam em êxtase com a explosão de violência da refilmagem de Scarface (e com a lindíssima Michelle Pfeifer em papel inesquecível!),  George Lucas expandia seu império com Star Wars Episódio VI: O Retorno de Jedi e saberíamos que Flashdance atormentaria as Sessões da Tarde para sempre. Ritchie tomou o Brasil de assalto com sua “menina veneno”, Clara Nunes morria e os Paralamas do Sucesso lançariam seu primeiro LP enquanto Michael Jackson enlouquecia o mundo inteiro com sua imortal Billy Jean (e seu MoonWalk) . O filme Gandhi levaria 8 estatuetas do Oscar para casa e Woody Allen faria o cine-documentário Zelig.

No ano em que morreria Luis Buñuel, um filme despretensioso sobre hackers e computadores marcaria sua geração e se tornaria um pequeno clássico de uma era de ouro na microinformática. Faturou cerca de U$ 80 milhões e foi indicado para 3 oscars(melhor roteiro original, melhor mixagem de som e melhor fotografia). Este é Wargames (Jogos de Guerra).

Wargames (Jogos de Guerra) é um filme com e sobre computadores e conta a história de um jovem hacker que, acidentalmente conecta seu microcomputador ao sistema de defesa aerospacial americano(NORAD), controlado por um supercomputador ultrassofisticado (para a época). A invasão acaba provocando um estado de alerta quase desencadeando a Terceira Guerra Mundial (entre EUA e URSS). E Broderick apenas jogava damas, xadrez, gamão e quase explodiu o mundo com seus “jogos de guerra”!

Os computadores do filme são dois: o primeiro é um IMSAI 8080, lançado em 1975 que era um aparelho para “hobbystas” e aficionados por eletrônica (basicamente um clone do MITS Altair, considerado o primeiro computador pessoal e para o qual Bill Gates e Paul Allen escreveram um interpretador BASIC, primeiro software da Microsoft). O IMSAI rodava uma muito modificada versão do Sistema Operacional CP/M chamado IMDOS. Foi desenvolvido pela IMS Associates, Inc. (depois renomeada para IMSAI Manufacturing Corp). Foram produzidas, no total, cerca de 20 mil unidades até 1978.

O IMSAI, como todos os clones do Altair, era um negócio meio tosco se comparado aos PC’s modernos. Um bando de luzes, led’s e botões que vinha sem monitor e em forma de kit, logo, tinha que ser montado pelo comprador. Usava um processador Intel 8080 de 2 a 3 Mhz (!!) (tataravô do Core) e um barramento S-100. Usava uma fita cassete para armazenamento (opcional) ou disquetes de 5 ¼” ou 8”(também opcionais) e memória de 4K(!!). Mais informações sobre o IMSAI, clique aqui. Sobre o ALTAIR, clique aqui. Para um vídeo sobre o Altair em uso, aqui e aqui.

Nas imagens, vemos Broderick e seu IMSAI 8080:

 

  

  

Algumas imagens do IMSAI 8080:

   

O outro computador do filme é o, muito mais famoso (ao menos no cinema), IBM NA/FSQ-7. Este computador (o maior já construído) era peça importante do sistema Semi Automatic Ground Environment (SAGE) da rede aérea de defesa, (Ambiente semiautomático de, ou em,  solo) usado para rastrear e interceptar bombas inimigas no final dos anos 50 e 60 pela Força Aérea Americana. Era também conhecido como IBM AN/FSQ-7 Combat Direction Central (Direção Central de Combate) ou “Q7” para os íntimos. Além de um computador enorme, ele possuía um sistema de controle gigantesco. Durante a guerra fria foi usado para interceptar mísseis e fazer controle de missões em solo.

O Q7 é conhecido como o maior sistema de computador já construído (Cada uma de suas 24 centrais pesava 250 toneladas e tinha dois computadores Whirlwind completos). Suportava mais de 100 usuários. A IBM usava cerca de 60 funcionários apenas para “dar manutenção” ao monstrengo.  Para fazer seu trabalho ele usava o algoritmo  Automatic Target and Battery Evaluation (ATABE). Usava leitores de cartões perfurados para entrada de dados (IBM 723) e uma impressora em linha IBM 718. Usava fitas magnéticas para armazenamento (IBM 728 magnetic tape drives). Tinha uma memória central com uma word(palavra) de 32 bits (mais 1 bit de paridade) que operava em um clock de 6 microssegundos(!!). Ambos os computadores tinham (se a Wikipedia estiver correta) dois bancos de memória, um com 65.536 words e o outro com 4096 words, o que dá cerca de 262.144 bytes no primeiro e 16.384 bytes no segundo (ou seja, era um colosso para sua época!).

Seu aparecimento no filme:


(David vê um vídeo do professor Falken, que usa um painel de um supercomputador Q7 para jogar games (meu ídolo eterno!!)

Fotos do Q7:

    

  

  

No cinema, o Q7 é uma verdadeira estrela aparecendo em mais de 50 filmes!!

Alguns filmes em que ele aparece são: Viagem Fantástica (1966); A Conquista do Planeta dos Macacos (1972); Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu (1980); O Enxame (1978); S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço (1987); Androide Assassina (1991); Um Tira da Pesada 3 (1994); Independence Day (1996); Austin Powers – O Agente ‘Bond’ Cama (1999); Retorno à Batcaverna, as aventuras de Adam e Burt (2003); Austin Powers em o Homem do Membro de Ouro (2002); Invasão das Mulheres Abelhas (1973); Virus (1999); Inferno na Torre (1974); Lost – 2ª temporada, (2005); Batalha do Planeta dos Macacos (1973); Gremlins 2 – A Nova Geração (1990); The Time Machine (1978); Battlestar Galactica – Temporada 1 (1979) além de muitos outros. Uma verdadeira DIVA do cinema!

No filme Wargames (Jogos de Guerra) os dois computadores são fundamentais para a trama, o IMSAI 8080 é usado para as atividades hackers do protagonista enquanto que o Q7 é o computador que pode literalmente, “explodir o mundo”. Ponto alto para a conclusão que a IA (Inteligência Artificial) do Q7 chega sobre os “jogos de guerra” reais. Conclusão esta que, embora simples e frugal, chegando a ser até inocente, nunca foi compartilhada ou colocada em prática pelos governantes de cada pedaço do mundo que, em vez disso, se especializaram em destruir seu semelhante de forma automatizada e até mesmo industrial. Uma pena! Como diria John Lennon, “não importam os motivos da guerra, a paz é mais importante que eles”. Conclusão que até um punhado de metal, circuitos e fios chega, mas que nós, ainda não chegamos!

E acho que o filme é, embora simples, muito bom (pelo menos eu gostei bastante a última vez que assisti e isso já faz muito tempo). Transformou-se em um clássico para a minha geração e sempre é citado quando se fala de computadores em filmes, além de mostrar a revolução da microinformática que se iniciara há pouco tempo. Àquela altura (1983) os computadores pessoais já eram uma realidade com modelos pipocando e fazendo sucesso, entre eles o Apple II, o TRS-80, o MSX (o primeiro computador que usei), o ZX Spectrum, o Commodore 64, o IBM-PC, o ZX80 e 81, o VIC-20 e a revolução estava se formando tanto nas empresas como no ambiente doméstico. O Computador Pessoal iria revolucionar o mundo inteiro, incluindo o próprio cinema, mas em 1983 eles ainda eram considerados coisa de adolescentes nerds com sintomas de Síndrome de Asperger e que, eventualmente, poderiam explodir o mundo!

Abs e até a próxima.

P.S.: Este post faz parte de uma série que estarei iniciando hoje, chamada “Os computadores dos filmes”. Em cada parte analisarei os computadores usados em filmes. Se você, um dos meus 4 ou 5 leitores, gostou, pode sugerir filmes para que analisemos seus computadores por aqui (caso você queria saber qual modelo é, tb!).

Até!

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1 Comentário Add your own

  • 1. Computadores famosos do cinema e da televisão | Monolito Nimbus  |  segunda-feira, 18 maio, 2015 às 4:09 am

    […] O filme “Jogos de Guerra” (1983) conta a história de um jovem hacker que acidentalmente conecta seu microcomputador ao sistema de defesa aerospacial americano (NORAD), controlado por um supercomputador ultrassofisticado. O código de lançamento de mísseis CPE1704TKS é descoberto por força bruta pelo computador. Veja mais no site Computador de papel. […]

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O computador de papel nada mais é do que a tentativa de "humanizar" o computador, trazê-lo para a fantasia lúdica da realidade, fazê-lo compreendido pelos milhares que o usam, mas não o entendem. Nasceu de minhas viagens intelectuais defronte da tela de fósforo um dia em que ele retrucou-me: decifra-me ou te devoro. Para não ser devorado, ousei decifrá-lo. É também onde posto minhas aulas, meus trabalhos, minhas impressões de um pouco de nada sobre coisa nenhuma. É o local onde falo das minhas paixões, entre elas, a música, o cinema, a TI e a ciência. É um espaço de discussão sobre a realidade do computador, sua influência, seus avanços, o exercício do óbvio que é mostrar a sua importância no e para o mundo. Tem o estilo de seu criador, acelerado, com um tom sempre professoral, tresloucado, por vezes verborrágico, insano, nevrálgico, sem arroubos literários, atônito e contemplativo diante da realidade, apaixonado, livre, feito para mostrar que a TI é antes de tudo, feita por gente!

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